Vida líquida, vida suspensa.
Seria ótimo se eu perdesse essa mania de querer dar sentido a tudo. A vida já me mostrou que, para certas coisas, não deve ser esperar muito sentido. Não há uma lógica nos e acontecimentos. O acaso está sempre presente. Ahhh Deus joga dados sim.
Encarar o caótico do que acontece é um exercício de desencantamento da visão de mundo. E isso dói . Afinal, ver sentido nas coisas é tão reconfortante…
Eu já estava digerindo bem as agruras da vida líquida, entendo que a única coisa estável é a instabilidade. Criei estratégias dinâmicas para estar sempre me adaptando ao novo. Estava às raias do otimismo.
E então um fato originado do mundo microscópico debocha de todos colocando tudo em suspense. A pandemia de covid-19 é uma trolagem na prepotência da nossa geração. Tanta tecnologia, cibernética, projetos aeroespaciais, mirabolâncias nucleares, nanotecnologias, neurociências, ideologias, filosofias e, de repente, como numa inversão do filme Guerra dos Mundos (2005, dirigido por Steven Spielberg), o mundo microscópicos resolve botar banca, porém contra nós. Dizima milhares de vidas e mostra como é patética a arrogância do homo auto-intitulado sapiens.
É fácil pra mim ficar na minha bolha. Vista bonita, despensa cheia, teletrabalho, essas comodidades de classe média. Mas a empatia com o sofrimento dos que não desfrutam do mesmo é dilacerante. As milhares de covas, a vilania abjeta que vem de Brasília e infecta as mentes embrutecidas de nosso país é de dar náuseas.
Mas tô pegando o jeito. O feijão está cozinhando, estou atendendo o cliente no chat, o meu cão tá no petshop, a conta está vermelha e... continuo ouvindo as ambulâncias.


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